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A silenciosa crise ambiental alimentada pelas máquinas de lavar roupas

por Jonathan Amos, BBC – 

Quando somada, a quantidade de microfibras sintéticas que vão para o ambiente quando lavamos nossas roupas é surpreendente.

Cientistas americanos estimam que já tenhamos produzido cerca de 5,6 milhões de toneladas de poluição de microplásticos a partir de roupas com fibras sintéticas. É uma quantidade que se acumula no ambiente desde que começamos a usar poliéster e náilon em grande escala, na década de 1950.

Pouco mais da metade dessa massa — 2,9 milhões de toneladas — provavelmente acabou em nossos rios e mares. Isso é o equivalente a sete bilhões de jaquetas de lã, dizem os pesquisadores.

E cada vez mais esse problema de poluição por microplásticos das roupas sintéticas afeta também o solo.

A equipe da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB), que fez os cálculos, descobriu que as emissões desse poluente para o meio ambiente terrestre por ano (cerca de 176,5 mil toneladas) agora ultrapassaram as para corpos d’água (167 mil toneladas).

O motivo? Os trabalhos de tratamento de esgoto tornaram-se muito bons em capturar as fibras despejadas pela máquinas de lavar.

O que está acontecendo é que essas fibras capturadas, junto com o lodo da filtragem, estão sendo aplicadas (como parte de fertilizantes) em terras agrícolas ou simplesmente enterradas em aterros sanitários.

“Ouço pessoas dizerem que o problema da microfibra sintética da lavagem de roupas vai ser resolvido à medida que o tratamento de águas de esgoto se tornem mais difundidos e mais eficientes em todo o mundo. Mas o que estamos fazendo realmente é apenas mover o problema de uma ‘área’ ambiental para outra”, diz o pesquisador e ecologista Roland Geyer, da Universidade da Califórnia, à BBC News.

Trabalhando com uma série de outros especialistas, Geyer já calculou a quantidade total de plásticos virgens já produzidos (8,3 bilhões de toneladas); e o fluxo anual de plásticos nos oceanos (cerca de 8 milhões de toneladas por ano).

 

Cientistas calculam que, por ano, ingerimos mais de 70 mil partículas de microplásticos (Foto: 5GYRES/OREGON STATE UNIVERSITY)

Esses cálculos são extremamente complicados e envolvem modelos que recorrem a algumas suposições para preencher lacunas de dados do mundo real. Eles podem não ser 100% precisos em suas descrições dos problemas, mas ao menos fornecem alguns números importantes nos quais discussões sobre possíveis soluções podem se basear.

Cerca de 14% de todo o plástico produzido é usado para fazer fibras sintéticas, principalmente para roupas. Quando essas roupas são lavadas, elas soltam pequenos fios que são muito mais finos do que um fio de cabelo humano.

Para seu relatório recém-publicado na revista científica PLoS One, a equipe da UCSB tentou descobrir quantas roupas sintéticas foram produzidas nos últimos 65 anos ou mais; como foram usadas e como foram limpas.

Considere a complexidade de tal avaliação: quantas pessoas em todo o mundo têm acesso a máquinas de lavar e quantas ainda lavam à mão; quantas dessas máquinas de lavar tem portas frontais e quantas tem portas em cima; quais os métodos e detergentes usados nas lavagens; entre outros fatores.

Tudo isso afeta a quantidade de fibras eliminada pelas máquinas. Sabe-se, por exemplo, que as pás rotativas existentes em máquinas com a porta em cima aplicam muita pressão mecânica às roupas e, portanto, eliminam mais microfibras.

 

Uma ‘montanha’ de plástico

Quando a equipe da UCSB fez sua análise levando em consideração todas essas variáveis, o número encontrado para a massa total de microfibras sintéticas emitidas pela lavagem de roupas no mundo todo entre 1950 e 2016 foi de 5,6 milhões de toneladas.

Metade desse valor, porém, foi liberado apenas na última década. Isso é em parte uma consequência de armários cada vez mais lotados de roupas.

Em 1990, dizem os pesquisadores, a média global de roupas por pessoa era de 8 kg. Em 2016, cada pessoa tinha em média 26 kg.

 

Cada tipo de máquina de lavar utilizada solta uma quantidade diferente de microfibras sintéticas (Foto: GETTY IMAGES)

Para resolver o problema, é conjunto de soluções, comenta Jamie Woodward, do Departamento de Geografia da Universidade de Manchester. A equipe de Woodward foi a primeira a mostrar que os rios do Reino Unido podem estar fortemente contaminados com microplásticos.

Essas soluções incluem a redução do uso de fibras sintéticas, a criação de filtros mais eficientes nas máquinas de lavar e o desenvolvimento de um melhor tratamento de resíduos (produzidos pelos seres humanos).

“As microfibras representam um desafio particular porque escapam das estações de tratamento de esgoto aos trilhões — mesmo com tratamento avançado”, afirma Woodward.

Mas mesmo quando a poluição é filtrada pelas estações de tratamento, elas estão poluindo o ambiente terrestre. Ou seja, melhorar as infraestruturas de tratamento de esgoto só vai acentuar essa tendência.

“É improvável que seja tecnicamente ou economicamente viável a remoção em grande escala de microfibras do meio ambiente”, diz a pesquisadora Jenna Gavigan, principal autora da pesquisa científica publicada pela UCSB. “Então o foco precisa ser na prevenção de emissões.”

“Uma vez que as estações de tratamento de água de esgoto não reduzem necessariamente a poluição, nosso foco deve ser a redução das emissões para o meio ambiente”, diz Gavigan.

“Sabemos que os microplásticos estão no meio ambiente há décadas, mas ainda não sabemos qual seria um nível ambientalmente aceitável de contaminação por microplástico — em qualquer ambiente”, diz Woodward.

Isso ressalta a importância de pesquisas para compreender o impacto ecológico do microplástico em ambientes terrestres e aquáticos, diz o pesquisador. “A poluição microplástica é um fato da vida moderna. Ela veio para ficar e estamos apenas começando a entender as consequências”, diz Woodward.

“Fibras naturais como lã e algodão estão presentes em nossos rios e mares em concentrações significativas desde a Revolução Industrial. A durabilidade das fibras sintéticas significa que estarão no ambiente natural por muito mais tempo.”

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